
Feridos
Para todos aqueles que sabem : O nome das coisas não as liberta de serem apenas parte deste mundo.
Sucede que me canso de mis pies y mis uñas
Y mi pelo y mi sombra.
Sucede que me canso de ser hombre.
Pablo Neruda, Walking Around
“Quase não há tempo para morrer de vício, antes dos quarenta”, escrevo na caderneta de folhas azuis, após lembrar-me dos trinta e sete anos completados no mês anterior. Qualquer tentativa de suicídio que se assemelhe à fatalidade me custará mais tempo. De novo a idéia romântica de morrer jovem, leva-se muito tempo para ser jovem, disse Pablo Picasso e penso: O que nos faz trocar o mistério da vida pelo da morte? O que pode ter a morte de tão fantástico e sedutor, que o túnel escuro dos dias – ainda chamado de futuro - fique sem oferecer? O desejo de morrer nasce quando estanca o diálogo com a vida ou a vida em mim é maior que a vida dos arredores, o que é a morte senão a vida além do que pode ser a vida neste mundo?
Não tinha certeza de nada, mas a suspeita de todos os dias era: Eu morreria no outono, e não sei explicar, assim com poucas palavras, sem causar mais estranheza ou dúvida, o que me levava a acreditar na morte na estação das folhas secas, algo deveria fazer sentido em minha vida, morrer quando sempre morrem as flores e ter confirmada a minha suspeita, me dava um certo sabor de livre - arbítrio sem incorrer em crimes ou trangressões contra qualquer lei que não dava direito de dispor de minha própria vida. Olhei pela janela e não era outono, sequer era outubro, era esse inverno que tenta ser mais frio que a solidão em cada um e, não consegue, pelo menos no meu caso, não. E não era Outubro e aí me lembrei, morrer no outono era apenas uma maneira de dizer morrer em Outubro, mas como seria a mesma coisa, se Outubro para mim sempre trouxe a primavera e de novo, a dúvida, eu amaria Outubro se o tivesse conhecido com folhas secas, com rubores amarelos? Não sei. Somente sei que: Amo Outubro. E se não for possível morrer no Outono para que tudo faça sentido, pelo menos seria confortante - se a morte puder ser isso e se não for pedir muito - morrer em Outubro.
Hoje ainda não é Outubro, apenas domingo. Um Domingo gelado de Junho.
Alguns dizem que domingo é o último dia da semana.
Outros: É o primeiro. Outros ainda, nada disso. Domingo é domingo. Dia sagrado, de reunião familiar, almoço ainda que de cardápio sempre repetido, sempre, almoço de domingo.
Estou tentando contar uma história de um domingo, eu e outros, eles e o que aconteceu do encontro comigo, ah se eu pudesse também falar aqui de suas impressões. Escrevo poesias com o ouvido, estico as palavras capazes de translucidamente refletir o grito, o ruído, o pestanejar das percepções de cada um ou talvez de todos os sentidos. De som, feita para ressoar e dessa maneira, quando me convidaram para uma tarde de declamações e vinho – expor-se a Dionísio e seus desígnios císmicos, sentir o movimento das fendas da alma dilacerada juntando-se após cada sorver de vinho – varal de poesia, performance teatral, pensei, ideal para o domingo, poesia para anunciar a semana e inquietá-la.
(Overdose por anfetaminas, frustrada, ácido, ecstasy e muito álcool, ficou desacordado próximo a coma, mas salvou-se.)
E os olhos cheios d’água após aquele beijo e pensar esse é o amor da minha vida e pensar também: nunca mais pensarei isso depois de nenhum beijo com outro suposto amor de minha vida.
Ando entre os retidos no mundo, no seu mundo e cercas entrelaçadas e os vagamundos – quem sabe eu seja assim – e os vagalumes, pequenos, grandes, de espécies, de raças variadas, vagalumes humanos que poderiam ser chamados trazemlumes ou levamlumes.
Essa névoa de mentira: a que não sabe ser de fria umidade e vapor gelado da madrugada, feita de aparências e desertos inventados, para os transgressores reais nos seus invioláveis castelos, degolarem a sorte dos bons.
E os bons ou os rebeldes ou aqueles que ousam dizer da vida somente seu curso natural como rio, estão destinados, melhor dizendo, retidos na convencional maneira de dizer, isto pode, isto não. Vejo o homem mal dormido, mal desperto, mal vivendo com seus dilemas diários: tentar ser o mais vil possível para não parecer bom demasiado, Tentar ser o melhor possível para não assemelhar-se a um sem-coração, dividir de tal forma que não falte para ele se possível, o melhor pedaço e chegar até em casa à noite, vivo ou pelo menos sentindo a maior parte das partes do corpo.
Eu havia decidido por algo e, resolvi fazer o contrário, a primeira decisão foi intuitiva, aliás, a única, porque depois foi o ato. Fiz o contrário para saber se deveria seguir a intuição ou não. Explico, pensava não ir ao recital. O destino de um poeta é ler as intuitivas vozes do seu inquietar-se no mundo.Decidi...
Continua em outra hora
Julio, estou aqui em uma visita relâmpago, vim lhe convidar a ler o novo capítulo de “O Diário de Bronson (A Continuação de O Chamado)” e deixar o seu comentário.
ResponderExcluirRetornarei com melhores modos. Tenha uma boa semana.
Abraço do Jefhcardoso!
http://jefhcardoso.blogspot.com