domingo, 14 de agosto de 2011
O contador de histórias
A arte de viver consiste em sacrificar uma paixão baixa a outra mais elevada.
(F. Mauriac)
Dele resplandecia: o horizonte perdido, pelos admirados, naquela tarde. Havia andado por várias centenas de povoados fundados na terra dos que não querem morrer e na terra dos que rejeitam a vida. Falou do aroma e da maciez de lençóis, do viço de frutas e de mulheres - cobiçadas pelo incerto e pelo maravilhoso do que prometiam – de casas de pedra, de tábuas, de barro, de lembranças, de ventos. Falou de Zé flor: andarilho sentado há muito na intempérie e na indiferença dos dias e, quando procurado pelos repórteres locais para que enfim a sociedade o visse na televisão: que era o lugar aonde a vida real costuma acontecer, revoltou-se e da memória ou do tecido dilacerado de seus trajes, tirou o incômodo da sua voz: Querem inventar uma casa para mim, mas já tenho uma e, é feita de vento e multidão.
Julio Almada In Caderno de Ontem
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